O Orixá Ossanha no Batuque do Rio Grande do Sul: O Senhor das Folhas e da Cura

Dentro do ritual do Batuque no Rio Grande do Sul, Ossanha (também conhecido como Ossãe) ocupa um posto de relevância absoluta e indispensável. Ele é o senhor supremo das plantas medicinais e litúrgicas, o dono das folhas, das matas e dos segredos da cura. Sua importância é vital e transversal a todo o culto: sem Ossanha e o poder que ele detém sobre o reino vegetal, nenhuma obrigação de cabeça, feitura ou assentamento pode se realizar, pois é dele o axé contido no omieró ou abô (o banho sagrado feito de ervas).
Além de seu domínio sobre a flora e a medicina, os fundamentos apontam que a Ossanha pertencem os ossos, os nervos e os músculos do corpo humano. Na rica mitologia do Batuque, ele se apresenta de forma singular, sendo associado à figura de uma divindade que não possui uma das pernas. Esse mistério se reflete diretamente no transe ritualístico: quando manifestado em terra, Ossanha executa sua dança sagrada com uma das pernas encolhidas, e many de seus filhos chegam a dançar uma noite inteira equilibrando-se em uma única perna, honrando o preceito do Orixá. Pessoas com marcas ou defeitos físicos nas pernas guardam, quase sempre, uma forte ligação espiritual com ele.
Principais Fundamentos e Características de Ossanha
- Saudação: Eu-Eu! (ou Eueu!)
- Dia da Semana: Segunda-feira.
- Número de Vibração: 07 e seus múltiplos.
- Cores: Verde e Amarelo.
- Guia (Fio de Contas): Confeccionada intercalando 01 conta verde e 01 conta amarela.
- Ferramentas: Coqueiro de metal, muleta, bisturi, cágado, moedas de metal e búzios.
- Sacrifícios Litúrgicos: Galo cinza com vermelho (aves) e cabrito de qualquer cor, exceto na cor preta.
Os Adjuntós e o Sincretismo na Tradição do Sul
As passagens de Ossanha se entrelaçam com a grande mãe e senhoras das águas e da doçura através dos Adjuntós, refletindo-se nas seguintes relações com o sincretismo religioso do Sul:
- Ossanha com Oxum Demun: Caminho em que a divindade é sincretizada historicamente na figura de São Cristóvão.
A Egbé / Frente (Oferenda Oficial)
A preparação da egbé para Ossanha evoca a fartura e a ligação com os mistérios da terra e do mato. A bandeja é estruturada sob uma base de papel de seda nas cores verde e amarela (com o amarelo posicionado por cima), seguindo rigorosamente a estrutura litúrgica da tradição:
Forra-se o fundo da bandeja com uma porção generosa de pipoca branca e adiciona-se a linguiça de porco frita no azeite comum. No centro, assenta-se o elemento principal: o apetê (opeté), feito estritamente com batata inglesa cozida e esmagada com uma pitada de azeite de dendê.
Ajuste e Formato do Apetê:
A modelagem da massa de batata inglesa assume formatos geométricos e anatômicos específicos de acordo com a linhagem e a necessidade do fundamento ritualístico, sendo todas as formas aceitas e corretas dentro do culto:
- Formato de Cone: A modelagem tradicional mais comum para frentes gerais.
- Formato de Pé ou Joelho: Utilizado especificamente para evocar a regência de Ossanha sobre os membros e articulações inferiores.
- Formato de Triângulo: Empregado e firmados na geometria sagrada do Orixá.
Para coroar a oferenda e selar o axé de cura e vitalidade, a bandeja é finamente ornamentada com figos frescos por cima ou ao redor do apetê.
