O Orixá Bará no Batuque do Rio Grande do Sul: Fundamentos e Tradição

Ilustração do Orixá Bará em arte linear

No Batuque do Rio Grande do Sul, nenhuma caminhada espiritual se inicia sem a permisso daquele que detém as chaves do destino. Bará é o Orixá da comunicação, do movimento e o verdadeiro dono dos portais, das encruzilhadas, dos caminhos e do comércio. Por carregar características muito próximas às dos homens, ele se apresenta como a divindade mais humana de todo o panteão africano.

Dentro do nosso ritual, a primazia de Bará é absoluta. É ele quem abre as portas de toda e qualquer obrigação, sendo invariavelmente o primeiro Orixá a ser servido e saudado. Não se trata de egoísmo da divindade, mas sim de uma regra fundamental de segurança e ordem litúrgica: agradar ao Bará em primeiro lugar garante a boa abertura dos trabalhos e o pleno direcionamento do Axé. Quando negligenciado, o resultado se reflete em caminhos trancados e adversidades. Ele é a força que destranca portas e prospera vidas, agindo sempre conforme o nosso merecimento e cumprimento de tarefas.

Na tradição das nossas casas, a guarda do território começa logo na entrada. A grande maioria dos terreiros possui uma estrutura específica — a famosa “casinha” — localizada na parte externa do templo, destinada a abrigar Bará Lodê e Ogum Avagãm, embora essa composição possa variar incluindo outros Orixás dependendo da raiz e da tradição de cada família de Axé.

Principais Fundamentos e Características de Bará

  • Saudação: Alúpo! ou Lalúpo!
  • Dia da Semana: Segunda-feira (Geral) e Sexta-feira (específico para a qualidade de Bará Agelú)
  • Número de Vibração: 07 e seus múltiplos
  • Cor: Vermelho
  • Guia (Fio de Contas): Corrente de aço (para algumas famílias) ou contas na cor vermelha (para as qualidades de Lanã, Lodê, Adagui e Agelú).
  • Ferramentas: Corrente, chave, foice, moedas de metal e búzios.
  • Sacrifícios Litúrgicos: Galo vermelho (aves) e cabrito de cor branco osco (manchas marrom).

Os Adjuntós e o Sincretismo na Tradição do Sul

A composição dos caminhos de Bará com as outras divindades (Adjuntós) e as suas correlações históricas com o sincretismo religioso revelam a complexidade deste Orixá:

  • Bará Lodê: Faz adjuntó com Iansã (sincretizado em São Pedro) ou com Obá (sincretizado em São Benedito).
  • Bará Lanã: Faz adjuntó com Obá ou com Oiá (sincretizado em Santo Antônio do Pão dos Pobres).
  • Bará Adagui: Faz adjuntó com Oiá ou com Obá (sincretizado em Santo Antônio).
  • Bará Agelú: Faz adjuntó com Oxum Pandá e, em certos casos, com Oyá (sincretizado no Menino Jesus no colo de Santo Antônio).

A Egbé / Frente (Oferenda Oficial)

A preparação da oferenda para Bará exige profundo respeito aos preceitos e elementos específicos de cada uma de suas qualidades. A montagem da bandeja (ou alguidá) é forrada com papel de seda na cor vermelha e leva, tradicionalmente no centro, um punhado generoso de pipoca branca. Os demais elementos variam rigorosamente conforme a qualidade do Orixá:

  • Bará Agelú: A base da bandeja leva milho cozido na água, acompanhado de 07 batatas inglesas cozidas e um apetê pequeno. Para esta qualidade, acrescentam-se lascas de coco fresco e sete balas de mel abertas (alternadas de forma intercalada entre as batatas). O tempero é feito regando a bandeja com mel de abelha.
  • Bará Adagui / Bará Lanã: A base é composta por milho torrado, acompanhado de 07 batatas inglesas assadas e um apetê médio. O tempero desta bandeja é feito tradicionalmente com gotas de azeite de dendê.
  • Bará Lodê: A base leva milho torrado (com um ponto mais torrado do que o utilizado para Adagui/Lanã), acompanhado de 07 batatas inglesas assadas e um apetê grande. O tempero também é feito tradicionalmente com gotas de azeite de dendê.