Os Orixás Odé e Otim no Batuque do Rio Grande do Sul: Os Senhores da Caça e das Matas

No Batuque do Rio Grande do Sul, as forças que regem as florestas, a busca pelo sustento e a fartura são personificadas pelo casal inseparável Odé e Otim. Divindades yorubanas da caça e do mato, eles compartilham uma ligação litúrgica tão profunda que, na tradição das nossas casas, onde um está, invariavelmente o outro também se faz presente.
Segundo os itãs, Odé é o terceiro filho de Yemanjá com Oxalá, sendo o grande rei de Ketu. Uma conhecida lenda conta que, desobedecendo aos avisos de sua mãe, Odé adentrou as matas profundas de Ossanha e, encantado pelos segredos daquele território, acabou ficando preso por lá. Diante do choro e da tristeza de Yemanjá, Olodumaré interveio para que Ossanha o libertasse. Contudo, por ter passado muito tempo na floresta, Odé se acostumou com a vida silvestre; embora visite sua mãe, sua verdadeira morada são as matas. Em nossa tradição, ele caça com precisão, mas seu coração piedoso faz com que entregue a caça à sua esposa Otim, que tudo devora e rege a fartura.
Os principais símbolos desse casal são o arco e a flecha, chamado Ofá, e o espantador de mistérios feito de rabo de boi, conhecido como Eruquerê. Em muitas passagens, Odé também é saudado como irmão de Ogum e de Bará, atuando diretamente na proteção dos caçadores, dos trabalhadores e de todos que buscam prosperidade em suas expedições e caminhos.
Principais Fundamentos e Características de Odé e Otim
- Saudação: Oquebambo! ou Oquebambo Okê Arô!
- Dia da Semana: Segunda-feira.
- Número de Vibração: 07 e seus múltiplos.
- Cores: Azul forte e branco para Odé; Azul marinho e rosa para Otim.
- Guia (Fio de Contas):
- Odé: Tecida na sequência de 01 conta azul, 01 conta branca e 01 conta azul.
- Otim: Tecida na sequência de 01 conta rosa, 01 conta azul e 01 conta rosa.
- Ferramentas: Arco e flecha (Ofá), funda, bodoque, moedas de metal e búzios.
- Sacrifícios Litúrgicos: Galo prateado claro ou pintado para Odé; galinha na cor preta para Otim.
- Quatro pé: Um casal de porcos.
Os Adjuntós e o Sincretismo na Tradição do Sul
Dentro da dinâmica do Batuque, os caminhos deste casal de caçadores se firmam de forma conjunta ou em passagens específicas com outras divindades:
- Odé: Faz adjuntó com Otim ou com Iemanjá Bocí (momento em que, tradicionalmente, a divindade Otim assume uma posição de “passagem”). Na história do sincretismo, é correlacionado a São Sebastião.
- Otim: Faz adjuntó diretamente com Odé. Na história do sincretismo, é correlacionada a Santa Bernadete ou Santa Efigênia.
A Egbé / Frente (Oferenda Oficial)
A preparação da oferenda para Odé e Otim reflete a doçura e a fartura que emanam das matas. A bandeja é estruturada de forma unificada para o casal sob uma base de papel de seda na cor azulão, contendo os seguintes elementos litúrgicos:
A base da oferenda é composta por um punhado generoso de pipoca branca e o tradicional miami doce (farinha de mandioca misturada com mel de abelha). Sobre essa base, adiciona-se o feijão miúdo e o fundamento da carne: uma chuleta de porco frita no azeite comum e posteriormente refogada no azeite de dendê com uma pitada de mel.
Para finalizar o preceito e evocar o axé de alegria e doçura característico dessas divindades, a bandeja é ornamentada e coroada com doces secos, como balas e pirulitos, distribuídos harmoniosamente ao redor do prato.
